Muito tempo se passou desde então. Não sei bem ao certo a origem, mas pude vivenciar cada minuto de incapacidade. Pode ser que tenha surgido no Ironman, talvez seja resquicio do a cidente, o certo é que por exatos 96 dias não pude correr desacompanhado de dor, muitas das tentativas inclusive interrompidas bruscamente tamanho o desconforto. Para quem vinha de uma rotina de treinos diária, o limbo e o ócio realmente pareciam um preço muito alto a se pagar.
Entrando em outro ritmo de vida, sabia que os treinos ficariam para terceiro plano e, com isso, poderia dar um tempo maior para meu corpo se recuperar. "Vá ao médico" muitos diziam. Não via necessidade. Seia simples assim: pedirim um raio - X, veria não haver fratura e, ou me mandaria repousar ou solicitaria uma ressonância, a qual não faria de forma alguma (nada de gastos por hora). Então restava-me o repouso e a paciência.
E assim seguiram-se os dias. A cada semana uma tentativa, alguns metros percorridos e dor ressurgia. Sim, estamos falando de metros, de distâncias próximas a 200 metros, exatamente da porta de casa até a esquina. A cada fracasso era assolado pela angústia de não saber onde tudo aquilo daria. Já se passara 60 dias e nem sinal de melhora, nada de progresso, nem pedalar era possível. Mesmo certo de não ser a hora de pensar em treino, começava a temer pelo futuro. Janeiro está aí e com ele mais um ciclo rumo ao ironman. Seria possível iniciá-lo?
Foi então que, saindo para mais uma averiguação, percebi que conseguira passar do meu limitador. Virara a esquina e agora prosseguia por um caminho até então nunca percorrido de forma tão dinâmica. A cada passo dado, um sorriso desconfiado ganhava forma em meu rosto. Estaria curado?? E assim fomos pelas ruas de Goiânia, cortando carro, alternando calçada e rua, sem saber ao certo onde chegaríamos. E já com aproximadamente 5 km percorridos, a dor deu sinal. Automaticamente parei. Uma mistura de frustração e alegria eram processadas em meu corpo. Já não lembrava quando podera fazer tal distância sem problemas, mas a dora ainda estava presente. Voltei caminhando, repensando minhas opções, estratégias, tentando definir como proceder dali para frente.
Quinze dias separavam minhas duas últimas corridas, diferenciadas por exatos 5 km! Parecia que estávamos em processo de recuperação. Não havia forçado tanto, sabia que mais alguns dias de descanso e provavelmente conseguiria retomar minha corrida. Um ponto que defini como certo foi a alteração da técnica. Já aplicara anteriormente, mas, por estar sempre preocupado com o tempo, acabava me esquecendo desse elemento e me voltava a correr "errado". Agora não, estaria praticamente começando do zero, sem pressão, sem tempos à vista, ideal para consolidar a técnica. Toda a teoria estava passada, agora era esperar.
E assim passaram-se os dias e então descobri uma corrida de rua aqui em Goiânia. Cinco quilômetros me pareceram uma boa pedida para colocarmos à prova nossa lesão. Domingo cedo, solzão do cerrado, hino nacional (veja só, nada de "I gotta feelin'") e partimos. O foco era simples: técnica. Passo curto, pé ante pé, tocando o chão apenas com a ponta do pé, contato mínimo, sem perder a cadência. Apesar de toda a atenção voltada para a mecânica, nada impedia de observar o ambiente à volta, o percurso, os participantes. Me sentia como uma criança em um parque de diversão e cada rua passada, cada curva, cada aclive ou declive era um brinquedo novo e, incansavelmente, desejava passar por todos. Em meio a esse dilúvio de emoções, acabo sendo surpreendido por araras voando em meio à cidade. Vindo de provas onde pombos sobrevoam os corredores, ser acompanhado por araras me pareceu realmente um presente de boas vindas. Todo sob controle, nada de dores, estávamos de volta.
Prova concluída, 5 min/km, até abaixo do esperado, pois há muito não treinávamos, mas nada melhor do que poder acabar uma provar sorrindo, sem dor nenhuma impugnando. Fez-me lembrar da minha última linha de chegada, repleta de felicidades e boas companhias. Aflorou disciplina de cumprir à risca cada treino, cada metro corrido, cada minuto em cima da bike, cada braçada na piscina. Soube ali que deveria inserir meus treinos à rotina de estudos, que dentre minhas 24 horas havia espaço e necessidade de somarmos tal compromisso. Lembrei de onde vinha a disciplina e determinação que hoje aplico ao meu dia a dia. Como diz o adesivo: "a vida é simples: nadar, pedalar, correr, comer, dormir". Inseri um estudar na rotina, mas a linha de raciocínio é a mesma!
Após quase cem dias enfim tivemos uma semana de treino. O ciclismo? Por enquanto no rolo, colocado estratégicamente em um terraço, com uma vista maravilhosa e um vento natural que faz inveja a qualquer ventilador! As corridas agora são partes constantes, válvulas de escape para minhas horas de treino. É delas que tiro forças para encarar mais algumas horas de estudo. As 24 horas do dia estão quase todas preenchidas, não há diferença entre uma segunda, uma quinta ou um sábado. Todos os dias seguem da mesma forma, com o mesmo grau de responsabilidade, as mesmas obrigações e feitas com a mesma dedicação. A última vez que me dediquei integralmente, me foi permitido viver um dos momentos mais felizes e deliciosos da vida. Aumentei o desafio, subi o nível das metas, agora e canalizar as energias e esperar que possamos desfrutar dos louros da conquista. E que venha 2013.

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